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O Meu Conto de Natal

por Santiago Miral, em 11.12.20

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A magnificência daquela igreja fascinava-o. Luz e cânticos natalícios invadiam cada recanto do vasto espaço. Mas Joel não se sentia confortável em espaços amplos. Sentia-se exposto, vulnerável e os seus grandes olhos demonstravam esse terror, perscrutando todas as janelas, todas as portas e todos os espaços sombrios do templo à medida que avançava pela nave central. Aquela era a sua primeira grande saída depois de ter dado entrada na nova família de acolhimento. Joel ouvira falar de Natal mas desconhecia o seu significado. No seu país, na sua cultura, as celebrações eram todas diferentes. Aliás, tudo era diferente. O seu olhar, habituado a uma realidade cinzenta e turva, deslumbrava-se pela multiplicidade de cores e sons que se estendia à sua volta, até ao horizonte.

Para Joel o horizonte sempre fora reduzido. Durante metade da sua ainda curta vida, as idas à rua eram raras e sempre em sobressalto. A guerra, aquele ser descomunal e infatigável que teimava em ceifar as vidas de familiares e amigos, avançava lentamente. Num canto escuro daquela casa incompleta, de paredes esburacadas com cheiro a pó e pólvora, onde a existência de uma simples porta ou algum mobiliário era considerado um luxo, Joel habituara-se a brincar com as cápsulas dos pequenos projecteis que todos os dias ia encontrando no chão daquele espaço. Tentando esquecer o ruido ensurdecedor que lhe preenchia a existência, ele bem sabia o seu propósito, embora tentasse esquecer quantas daquelas cápsulas teriam representado a perda de vidas. Imaginar o projéctil trespassando a carne de alguém causava-lhe arrepios, obrigando-o a questionar-se como era possivel existir tanta maldade e tanto ódio.

Mas a incomensurável criatividade de uma criança de dez anos ultrapassa todos os limites, todas as barreiras, todos os muros e era entre aquele pó e detritos que Joel construía pontes e estradas com os pequenos invólucros de latão. Construia cidades imaginadas onde o mal não entrava...

Até ao inevitável momento em que se viu só no mundo.

O banco corrido de igreja atrai-o. Aquele estrado polido e envernizado teria sido uma excelente cama no local de onde veio. Ou uma mesa. Ou uma porta.

De súbito, D. Paula – a sua nova mãe de coração – interrompe-lhe o longínquo pensamento:

- Joel, aqui é costume oferecer presentes nesta época. O que gostarias de receber?

Na sua infinita simplicidade e sem dar tempo para pensar, Joel replica:

- Não preciso de nada. Finalmente tenho aquilo que sempre pedi: uma Família e Paz.

 

 

(Desafio de Imsilva em https://imsilva.blogs.sapo.pt/vamos-escrever-um-conto-de-natal-116556)

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