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Solidão Partilhada

por Santiago Miral, em 30.09.20

nazaré.jpg

Conhecemo-nos junto ao ascensor da Nazaré no início dos anos 80 do século passado. Quase todas as noites, após o jantar, o encontrava por ali, numa daquelas cadeiras junto ao cais de embarque; sempre de fato preto e camisa branca, rosto atento e sisudo, mãos magras e ossudas apoiadas na extremidade curva de uma bengala de madeira quase tão velha como ele. Assim permanecia imóvel, horas a fio, observando quem passava.

Quando faltavam apenas dois dias para terminar as férias, e sem que me recorde o pretexto que serviu de origem a este encontro, estávamos já sentados a conversar numa das muitas esplanadas que existem nas imediações. Contou-me que lhe chamavam Andorinha, alcunha simpática com que fora brindado há umas décadas por um grupo de miúdos da Colónia Balnear devido às cores da sua roupa e ao facto de todos os anos ter casa alugada no mesmo local. Este gracioso epiteto pegou e passara a acompanhá-lo ao longo dos ultimos anos. Falou-me também da mulher e do filho que já não deviam tardar, pois tinham ido ao Sítio, às Festas em honra de Nossa Senhora da Nazaré. Ele não ia, que era pouco dado a festas e confusões e que ali sempre podia pensar na vida. Gostava, sobretudo, de conjecturar sobre as razões de viver de cada uma daquelas pessoas que, apressadamente, por ali passava subindo e descendo.

- Já viu aquele casal que ali vai? – Questionou, apontando em frente – Quase não falam nem se olham. Percebemos que são um casal apenas pela criança que os acompanha.

E lançando um olhar para a rampa do ascensor que se estendia em direcção ao céu, como se não fosse mais que a versão humanizada da escada de Jacob, interrogou-me com ar pensativo:

- Já reparou como aquele casal é parecido com estas cabinas que sobem e descem? Também elas, embora amarradas entre si por fortes cabos, raramente se encontram; e quando têm a possibilidade de o fazer, é precisamente no ponto em que se começam a afastar. Sem o saberem, vivem continuamente numa solidão quase completa. – E, olhando-me nos olhos, concluiu – O meu maior medo é vir um dia a ser alguém solitário, percebe?

Limitei-me a sorrir de forma desajeitada, talvez por não encontrar palavras que pudessem responder a esta demanda filosófica. Possivelmente embaraçado com a fraqueza que demonstrara ou devido à minha falta de resposta, o Andorinha levantou-se e despediu-se rapidamente para ir ter com a família que, segundo ele, já deveria vir ao seu encontro.

No dia seguinte, muito cedo, encontrando-me quase no mesmo local para o primeiro café da manhã, avisto-o a aproximar-se lentamente. Inquieto, foi o primeiro a falar:

- Sabe, ontem contei à minha família que estive aqui consigo e que me fez companhia. A minha mulher, por gratidão, pediu-me que lhe entregasse estes bolos-de-cabeça. Fê-los propositadamente para si, aproveite que estão fresquinhos e é uma receita lá da minha terra. - E continuou, em jeito de justificação - Ela pede desculpa por não vir, mas foi ao mercado buscar peixe para o almoço e o meu filho foi ajudá-la com o automóvel. Nestas idades ingratas já não podemos com uma gata pelo rabo. - Dito isto, soltou uma enorme gargalhada que nunca esquecerei. O Andorinha, desta vez, irradiava felicidade.

- A propósito, - interrompeu-me com o dedo indicador em riste, embora trémulo – Quase me esquecia. O meu filho também me pediu que lhe entregasse esta lembrança. É que hoje, ao final do dia, já nos vamos embora.

E, metendo a mão no bolso interior do casaco, retirou uma pequena andorinha de cerâmica de aspecto antigo (não me surpreenderia que fosse das primeiras que Rafael Bordallo Pinheiro registou em finais do séc. XIX e que se tornaram uma moda nas décadas subsequentes). Em seguida, puxou um maço de papéis preso por um pequeno fio de onde arrancou um cartão-de-visita amarrotado. Cuidadosamente, juntou os dois objectos colocando-os na palma da minha mão enquanto, delicadamente, me apertava os dedos contra eles:

- Tem aí também a nossa direcção. O senhor podia escrever-nos de vez em quando. Pode ser?

Agradeci a gentileza daquela família e confirmei que sim, que lhes enviaria uma carta em breve.

Contudo, apenas na quadra de Natal me lembrei de lhes enviar um postal de Boas Festas; porém, nunca recebi resposta. Talvez tivessem ficado sentidos pelo meu atraso ou talvez me tivessem esquecido. Alguns meses depois resolvi endereçar-lhes nova correspondência; desta vez uma carta, também sem qualquer resposta.

Por fim, já num fim de semana de Abril, resolvi fazer-lhes uma visita. Com isto iria certamente apaziguar qualquer desconforto que pudesse existir.

A casa não foi fácil de encontrar, mas quando finalmente cheguei, deparei-me com uma pequena habitação de barra amarela, uma acanhada porta de madeira com a tinta a descascar e duas janelas estreitas e fechadas. Sobre o postigo estava uma pequena chapa de metal com uma inscrição quase ilegível onde, com algum esforço, consegui perceber a palavra “Andorinha”.

Como parecia não haver ninguém, bati com alguma força mas não obtive resposta. Insisti. Do outro lado da rua, e um pouco mais abaixo, senti que se abria receosamente uma janela, dando lugar a uma tímida senhora de lenço muito justo a quem perguntei:

– Desculpe, mas é aqui que mora o senhor Andorinha?

- O Andorinha? - Inquiriu com espanto - Sim, é essa a casa, mas ele faleceu para aí há uns seis meses. Só deram por ele mais de uma semana depois, coitado.

- E sabe dizer-me onde posso encontrar a mulher e o filho? – Perguntei, em choque, querendo saber mais pormenores.

– Então o senhor não sabe? – Perguntou a senhora, visivelmente surpresa - O filho já morreu há muitos anos na Guerra do Ultramar e a mulher, coitadita, finou-se logo a seguir. Desgosto de mãe, foi o que foi. Já quase nem me lembro deles e já moro aqui há mais de trinta anos.

Lentamente, e quase sem forças, sentei-me no degrau da casa e, com o rosto escondido nas mãos, chorei como uma criança.

Aquele homem, que tanto apreciava a companhia, vivia há décadas, e sem que me apercebesse, numa profunda solidão. Uma solidão aliviada apenas pela partilha daquilo que sempre amara. Os bolos da esposa ou a andorinha do filho era apenas parte do seu mundo, da sua solidão, que fez questão de partilhar comigo.

A verdade é que o Andorinha - como ele gostava de ser recordado – partira. Tal como as andorinhas que em cada Primavera se deslocam para zonas de clima mais ameno, afastando-se novamente assim que o tempo se torna insuportável, também o Andorinha cumprira esse ritual, esse ciclo e, tal como as andorinhas que partem, também ele abandonara o seu próprio ninho – agora completamente vazio.

Aquela andorinha não voltará jamais.

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9 comentários

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De imsilva a 30.09.2020 às 21:49

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De João-Afonso Machado a 01.10.2020 às 09:27

Se voltar ao Sítio, vá à Confraria de N. S. da Nazaré e pergunte por um livro intitulado "De Uma Fammília de Mareantes"....
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De Santiago Miral a 01.10.2020 às 10:05

Aquela vila tem para mim um grande significado que vai muito além da praia e do Verão. O livro que refere não me é de todo estranho, mas não estou certo que o tenha visto em algo ligado à Confraria. Talvez me tenha cruzado com ele numa das minhas incursões amadoras sobre Genealogia e Heráldica (áreas que tenho desprezado um pouco nestes últimos tempos, devo confessar). No entanto, prometo que na próxima oportunidade o irei ler atentamente, desta vez com outro olhar e tendo em conta o autor. A sua sugestão deixou-me, de facto, muito curioso e estou certo que a consulta do livro será muito gratificante.
Muito obrigado pelo desafio.
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De simplesmente... a 01.10.2020 às 19:20

Excelente texto.
A vida humana é mesmo assim, toda ela tecida de encontros e desencontros.
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De Santiago Miral a 01.10.2020 às 20:23

Obrigado, António.
Também gosto muito de ler os seus textos, onde frequentemente me revejo.
Talvez este "Andorinha" fosse seu vizinho… ou meu. Quem sabe se não seremos os "Andorinhas" do futuro?
Um Abraço.
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De Anita a 12.10.2020 às 13:01

Que bela história. Até me partiu o coração
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De Santiago Miral a 12.10.2020 às 13:23

Obrigado, Anita.
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De Isa Nascimento a 24.11.2020 às 15:44

Amei verdadeiramente esta história.
Um tema pungente na nossa sociedade moderna, relatado sem lamechices, que me prendeu do princípio ao fim
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De Santiago Miral a 24.11.2020 às 16:03

Obrigado pelo seu comentário, Isa. Fiquei muito feliz por ter agradado.

(Se há histórias que também têm uma história, esta é uma delas. Quem sabe se um dia a irei contar aqui.)

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