Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]



Papoila ou Cravo - que importa?

por Santiago Miral, em 17.09.20

b4--bg.jpg

Nas traseiras do palacete estendia-se um grande campo de malmequeres rodeado por uma cerca de madeira. Ao fundo, junto ao poço de rega de onde retirava o sustento com as suas fortes raízes, erguia-se um imponente girassol que, por ser mais alto, se intitulou líder. Como era muito dado a discursos, um dia afirmou:

- Sou mais alto e mais forte e todos me devem obedecer. Só eu tenho a capacidade de ver o que há fora da cerca e de vos trazer noticias do mundo. - E continuava - Para que tenham noção da minha importância, é bom que saibam que até o sol é meu amigo e me obedece. E, todos os dias, ao pôr-do-sol, gritava:

- Estás dispensado por hoje, sol. - E o sol recolhia-se lentamente no horizonte. A partir de dado momento, não sei se por simples loucura ou senil demência, o certo é que até o girassol passou a acreditar no seu poder.

Certo dia, o girassol fez-se amigo de um besouro que aparecera por ali. Era forte, de carapaça negra e mandibula afiada. Devido a um qualquer imprevisto perdera a capacidade de voar e ficara retido para sempre no campo de malmequeres. O girassol, aproveitando-se dessa fragilidade, estabeleceu com o besouro uma estranha simbiose.

Assim, era frequente que alguns malmequeres mais esclarecidos questionassem o girassol, uma vez que a água raramente chegava a todos. O girassol, ao sentir-se ameaçado, permitia que fosse o besouro a resolver o problema. Este, sempre pela calada da noite, aproximava-se do malmequer queixoso, fazia-lhe uma pequena incisão e bebia-lhe a seiva, deixando-o moribundo. A verdade é que uns secavam, outros nunca mais eram os mesmos.

A maioria dos malmequeres mais jovens nunca conhecera outro cenário e, para eles, o mundo não ia muito além daquele espaço. Os mais velhos, cabisbaixos, pouco comentavam. Passou-se muito tempo nesta paz inventada.

O girassol, já curvo da idade, mantinha ainda o seu lugar. É certo que já não mantinha o vigor de outros tempos e algumas das extremidades das folhas estavam já amarelecidas, mas as suas enormes raízes ainda conseguiam chegar à agua do poço, o que lhe permitia manter-se sempre nutrido.

Certo dia, um rouxinol mais atrevido, daqueles habituados a voar livremente e a pisar outros lugares, deixou cair -  talvez sem querer - uma minúscula semente entre os malmequeres. Ninguém reparou.

Passadas algumas semanas, naquele campo maioritariamente branco, surge um botão de papoila que abre timidamente. Devagar, solta as pétalas. Quatro pétalas vermelhas e, sobre elas um cálice triunfal nunca antes visto. Parecia uma gota de sangue que alastrava sobre um manto de neve.

- Uma afronta! Como se atreve a invadir-nos o nosso pacato espaço? Não vamos tolerar isto. – Afirmou o girassol, irritado. O besouro foi chamado, a missão foi delineada e, nessa mesma noite a papoila sucumbiu à investida do besouro.

Chamado ao girassol, o besouro relatou como resolveu o problema, tendo, no entanto, informado que aquela seiva é diferente das outras, tem outra consistência, é mais amarga e difícil de digerir chegando até a causar alguma desorientação. O girassol desvalorizou.

Passados alguns dias, no local onde sucumbira a desafortunada papoila, várias outras papoilas começaram a emergir do solo. O cálice das sementes fora derramado e o resultado estava à vista.

Convocado o besouro, a segunda missão também fora bem-sucedida e a maioria das papoilas estava agora aniquilada. No entanto, o besouro, desorientado com a seiva que ingeriu, ferira de morte uma boa quantidade de malmequeres. Durante toda a noite o besouro gemeu de dores. Aquela seiva perecia queimá-lo por dentro.

- Danos colaterais. Acontece. - Racionalizava o girassol.

Na semana seguinte, toda a parte leste estava povoada de papoilas. Aquelas papoilas desafiavam o poder do girassol.

- Acaba com isto de uma vez por todas. Amanhã cedo quero o problema resolvido. - Ordenou o girassol, enquanto empurrava o besouro para a nova tarefa.
Contudo, após as primeiras investidas, o besouro foi acometido de uma estranha loucura, atacando tudo e todos. Corria em círculos, desgovernado, de olhar enfurecido e com as entranhas em fogo, já sem saber o que fazia.

Subitamente dirige-se ao girassol e, com alguns golpes certeiros, corta-lhe o pé, derrubando-o. O girassol grita por socorro, mas verifica que não tem já qualquer amigo que o possa salvar. Para espanto de alguns (e talvez do próprio girassol), o sol continuou, indiferente, a observar do alto. O besouro, cego de raiva e com a mandibula ainda enterrada no caule, não se apercebe que acompanhará o seu amo nesta última viagem para o interior do poço. Segundos depois, escutam-se sons de gritos e de água agitada. Por fim, a calmaria.

Dizem que hoje aquele espaço é um campo de flores de todas as cores e espécies. Quanto à cerca de madeira; essa, caiu de podre.

https://www.youtube.com/watch?v=LgPJwhe86AY

Autoria e outros dados (tags, etc)


21 comentários

Imagem de perfil

De cachimbada a 17.09.2020 às 16:02

Lutemos, caríssimo Santiago!
(palmas)
Imagem de perfil

De Santiago Miral a 17.09.2020 às 16:35

"Lutar com palavras é a luta mais vã...". Assim começava um belíssimo poema de Carlos Drummond de Andrade.
Imagem de perfil

De cachimbada a 17.09.2020 às 18:04

Verdade. Não obstante, “Entretanto, luto”, diz o Sr. Andrade. No fundo - se observado sob certo ponto de vista -, o que não é vão? Palavra enquanto palavra, o vento bem a leva. Palavra enquanto Palavra (ideia) pode – quem sabe? – aterrar, germinar, tornar-se de sólido porte e presente para um futuro potencialmente diferente.
Imagem de perfil

De Santiago Miral a 17.09.2020 às 23:53

Reconheço a imprecisão da minha resposta. Ao tomar, aparentemente, a parte pelo todo posso ter dado a entender que defendo a inutilidade da luta. Lutas e palavras, mesmo as perdidas ou desperdiçadas, nunca são em vão.
Obrigado pelo seu reparo.
Imagem de perfil

De cachimbada a 18.09.2020 às 12:00

A luta a que se referia talvez fosse a luta “pessoal” com as palavras, o Homem (Eu) e a Palavra, o homem e o símbolo, o signo, o sentido, significado, a dificuldade do encontro com a expressão “exacta”, quão vão é (ou pode ser) lutar com elas ou contra elas, o amor e o ódio, a certeza e a dúvida em não raros casos… Ah, o que conheço de enredos… e de labirintos das possibilidades… Às vezes luto, mas julgo que o melhor mesmo é a entrega.
Imagem de perfil

De Santiago Miral a 18.09.2020 às 12:44

Talvez a entrega não passe de uma forma de luta onde não existem derrotados, apenas vencedores. Mas poderá existir luta sem resistência, sem confronto? Não será a entrega apenas uma marcha orientada por um desejo final alcançável ou utópico? Quantas dessas entregas não serão mais do que uma luta interior, na demanda de um caminho viável e, sobretudo, de um objectivo glorioso? Afinal, já Bonaparte dizia que “a paz é uma palavra vazia de sentido; do que precisamos é de uma paz gloriosa”.
Talvez a paz, como derradeiro e ansiado pináculo só possa ser alcançada através da luta... Ou talvez não.
Imagem de perfil

De cachimbada a 18.09.2020 às 15:22

Talvez seja necessário lutar, travar muitas e valentes batalhas interiores, experimentar várias estratégias, cair e levantar-se em diferentes solos, para se saber como cessar o conflito, porque enquanto houver conflito não poderá existir verdadeira paz. É preciso saber ver e ler a Vida, tarefa nada simples. E cogito com os meus botões: não será que é baixando as armas, sem resistência alguma, que a glória nos é mostrada no seu esplendoroso arrebatamento? Bem sei: depende do entendimento de glória para cada um, assim como o individual entendimento do mundo e objectivos nele enquanto humano, enquanto vivente. É que a glória talvez não seja “ganhar”, “governar” ou “ficar na história”; a glória talvez seja alcançar um pacífico Saber. A criação é divina; a arte, humana imitação.
Sem imagem de perfil

De Insano a 20.09.2020 às 11:04

Tem jeito...
Pobre girassol, a minha flor favorita!
Bom domingo.
Imagem de perfil

De Santiago Miral a 20.09.2020 às 13:19

Pode, qual Van Gogh, continuar a gostar dos seus girassóis. Este, em particular, não passou de uma personagem que interpretou satisfatoriamente o seu papel.
Contudo, nunca devemos esquecer que, no teatro da vida, os vilões de ontem podem ser os heróis de amanhã.
Continuação de um excelente domingo.
Imagem de perfil

De Maria João Brito de Sousa a 20.09.2020 às 13:23

Foi ontem que, pela primeira vez li este seu texto de que sinceramente gostei.

Estando num estado de saúde muito precário, mortalmente ferida por uma daquelas grandes vergastadas com que a vida de quando em quando nos brinda e muito fraquita de acuidade visual, acabei por retirar-me em silêncio.

Deixo-lhe, agora, o meu abraço
Imagem de perfil

De Santiago Miral a 20.09.2020 às 13:40

Acredito que o canto dos frágeis tem o poder de chegar mais longe. Que a força da palavra nada tenha a ver com a debilidade de quem a profere.

Mesmo a árvore mais frondosa começou, um dia, por ser uma semente diminuta.

Obrigado pelo seu comentário e votos de um rápido e completo restabelecimento.
Imagem de perfil

De Maria João Brito de Sousa a 20.09.2020 às 13:51

Talvez, Santiago... mas aquilo que a vida me tem mostrado é que os frágeis são quase sempre remetidos ao silêncio...

Talvez possa ser considerado um acto de loucura alguém assumir em público as suas fragilidades. Tenho assumido as minhas, mas raramente me assumi frágil. Creio que nunca antes o admiti...

Obrigada
Imagem de perfil

De Santiago Miral a 21.09.2020 às 10:04

Mas não me parece frágil, pelo contrário.

Talvez a escolha das palavras “frágil” e “fragilidade” não tenha sido a mais feliz. Na verdade, a fragilidade a que me referia estava mais relacionada com um dado período de tempo, transitório e perfeitamente demarcado, aquele tempo de mudança onde nos sentimos como que num vale profundo, rodeados por montanhas que preenchem todos os nossos horizontes para que nos possamos sentir ainda mais pequenos. Pobres e ingénuas montanhas, desconhecem a verdadeira elevação, pois conceberam para si uma especial superioridade apenas por se acharem mais próximas do céu.
Contudo, rapidamente compreendemos que esse vale é frondoso e verde enquanto que as pétreas montanhas, embora descomunais, se apresentam esqueléticas e nuas, quase estéreis.
A humanidade esquece frequentemente que é nos vales, em todos os vales, que se reúne a essência, a alma e sustento de toda vida: a água, tão transparente e cristalina como a verdade.
Por isso, nunca entendi se o céu está junto ao cume das montanhas ou na imensidão do vale…
Imagem de perfil

De Maria João Brito de Sousa a 21.09.2020 às 12:52

E por que não poderá estar o céu no mar, Santiago?

Eu estou fisicamente muitíssimo frágil. Estou por um fio, não duvide, embora ainda seja muitíssimo forte noutros campos... mas é possível que tenha sido uma má escolha de palavras; talvez devesse ter optado por "pontualmente vulnerável"...

Quanto ao resto, tudo depende de tudo. Sem montanhas, não haveria vale que nos deslumbrasse com os seus frondosos verdes. E vice-versa.

Abraço
Imagem de perfil

De Santiago Miral a 21.09.2020 às 13:28

Ao ler este seu comentário sobre o mar, não resisti a chegar-me à estante e procurar um livro, pequenino e amarelecido, de um dos autores que mais prezo. É tão relevante para mim que tenho comigo toda a sua obra (praticamente esgotada).
Perdoe-me por não se tratar de um soneto, daqueles seus eleitos, mas creio que será igualmente delicado e interessante. Dele retiro apenas a primeira estrofe (obrigando os interessados a procurar o resto). Bem sei que isso descontextualiza tudo, mas a humanidade é assim: recorta, fragmenta, disseca, classifica até à exaustão… até que tudo seja reduzido a pequenas peças inuteis.
Tirando isso, achei que este poema lhe iria assentar como uma luva:

“Nunca o Mar me quis ter nas suas ondas
Enrolado e perdido.
Sou o Poeta das manhãs fecundas:
Vivo me quer o Mar, para cantá-las.”

Por isso, Maria João, cante-nos os seus poemas. Estamos ansiosos por escutar.
Imagem de perfil

De Maria João Brito de Sousa a 21.09.2020 às 13:46

A Canção Inútil, de Sebastião da Gama!

..."Tudo revela a esplêndida verdade/De ao pé do Mar, em tudo o que é do Mar/A Vida estar desperta"...

Claro que fui pesquisar Tenho uma péssima memória para poemas e, dos muitos milhares que escrevi, apenas um, que nem soneto é, saberia dizer de cor...

Esse mesmo, em que, ainda que sempre empunhando um cravo vermelho, assumo a vulnerabilidade da papoila...

Obrigada, Santiago
Imagem de perfil

De Santiago Miral a 22.09.2020 às 23:02

No seguimento desta troca de comentários com cheiro a maresia, ousei procurar um poema que não lia há muito. Encontrei-o, finalmente, numa pequena antologia autografada pelo autor, que repousa há muitos anos na minha estante. Reli-o e transcrevi-o. Cheguei à conclusão que o mar pode ser ainda muito mais:

“Tu perguntas, e eu não sei,
eu também não sei o que é o mar.

É talvez uma lágrima caída dos meus olhos
ao reler uma carta, quando é de noite.
Os teus dentes, talvez os teus dentes,
miúdos, brancos dentes, sejam o mar,
um mar pequeno e frágil,
afável diáfano,
e contudo só musica distante.

É evidente que minha mãe me chama
quando uma onda e outra onda e outra
desfaz o seu corpo contra o meu corpo.
Então o mar é carícia,
asa pura,
luz molhada onde desperta
meu coração recente.

Às vezes o mar é uma figura branca
cintilando entre os rochedos.
Não sei se fita a água
ou se procura
um beijo entre conchas transparentes.

Não!, o mar não é nardo nem açucena.
É um adolescente morto
de lábios abertos aos lábios de espuma!
É sangue,
sangue onde a luz se esconde
para amar outra luz ou as areias.

Um pedaço de lua insiste,
insiste e sobe lenta arrastando a noite.
Os cabelos da minha mãe desprendem-se,
espalham-se na água,
alisados por uma brisa
que nasce exactamente no meu coração.
O mar volta a ser pequeno e meu,
anémona perfeita, abrindo nos meus dedos.

Eu também não sei o que é o mar.
Aguardo a madrugada, impaciente,
os pés descalços e leves...”

(Eugénio de Andrade)
Imagem de perfil

De Maria João Brito de Sousa a 23.09.2020 às 12:25

Obrigada por esta belíssima perspectiva do mar, Santiago!

Nasci e cresci junto ao mar. Tenciono morrer perto dele mas, com o avançar da idade, cada vez me sinto mais atraída pela magia das florestas, também elas filhas do mar, como todos nós...

Mas nada de novo existe neste chamamento, afinal. Nos meus tempos de criança, o meu pai e eu, explorávamos juntos tudo quanto era vida nas praias mais remotas e nas matas mais densas e solitárias que encontrávamos...

Mas fui procurar no meu blog dos sonetos, um dos meus velhíssimos "sonetos do mar";

Deixo-lhe este, com um abraço


SOU DO MAR!



*

Sou do mar na estranhíssima alquimia

Que me transforma em fogo e pedra e gente,

E também de outro mar que, à revelia,

Se me sucede a cada sol nascente;

 

Da mesmíssima força em que ele nascia

Renasce, dia a dia, o meu presente,

E sinto exactamente o que ele sentia,

E sou exactamente o que ele consente.

 

Sou do mar no processo indecifrável

Que admite a simbiose entre o provável

E aquilo que ninguém pode provar

 

Mas, fruto desse jogo, eu sou palpável

E nessa mutação, nem sempre estável,

Eu sempre acreditei que sou do Mar!





 

Maria João Brito de Sousa – 26.07.2011 – 13.00h


Imagem de perfil

De João-Afonso Machado a 21.09.2020 às 00:04

Gostei muito.
Cá voltarei a descobrir mais do girassol e outras realidades.
Imagem de perfil

De Santiago Miral a 21.09.2020 às 09:26

Volte, sim. Este é um espaço onde se pretende que todos se sintam bem recebidos.

Poderei não falar mais do girassol, mas prometo trazer outras realidades (e ficções).

Obrigado pelo comentário encorajador, João-Afonso Machado.
Imagem de perfil

De Cecília a 23.09.2020 às 12:09

que bem eu sempre quis aos malmequeres - e devoção tenho às margaridas.

quão bom é caminhar livre, por um campo de malmequeres, de papoilas, com o sol refletido no rosto e sem cercas que nos determinem o caminho.

(cravos, sempre)

Comentar post



Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.




Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D