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Outro Conto de Natal

por Santiago Miral, em 15.12.20

cabana.jpg

Já se conheciam há décadas. Foram oradores habituais em várias palestras astronómicas e respeitavam muito as opiniões uns dos outros embora se reconhecesse ali alguma competição. Escreveram livros sobre estrelas, planetas, física quântica, teoria das cordas e teoria do tudo.

Embora mergulhados na ciência até ao tutano, eram homens comuns sem outras responsabilidades, de corações e vidas solitárias. Gostavam de futebol, de cerveja e de comer pipocas enquanto viam filmes. Para além disso, devoravam livros de astrofísica.

Há um mês, enquanto observavam o céu profundo nos seus telescópios, um deles notou a existência de um novo objecto semelhante a uma estrela. Contrariamente a todos os corpos celestes, este não tinha qualquer trajectória linear ou elíptica e, mais grave que isso, apareceu de um dia para o outro. O objecto luminoso encontrava-se completamente imóvel sobre um campo relativamente próximo.

Rapidamente, o primeiro pegou no portátil e conferenciou com os outros. Soube então que todos eles tinham avistado o objecto praticamente ao mesmo tempo. Num assomo de vaidade académica e numa vã tentativa de perpetuar o seu próprio nome numa descoberta tão assombrosa, cada um deles manifestou a sua intenção de baptizar o novo objecto com o seu próprio nome. Gerou-se uma profunda discussão e, em desacordo, abandonaram a conferência.

Naquela mesma noite, sem que soubessem uns dos outros, cada um arrumou o seu telescópio na mala do carro, preparou um pequeno lanche, não fosse dar-se o caso da observação ser mais demorada, e partiu.

Aquela área era quase deserta, apenas alguma vegetação matizava aquele espaço árido e estéril. A lua nova que teimava em não aparecer conferia à paisagem um ar sombrio, quase fantasmagórico. Estava um frio de rachar.

À medida que se aproximavam, o objecto luminoso foi tomando forma. Suspenso e imóvel parecia preso ao céu por um fio invisível. Por baixo, uma pequena casa de madeira com tecto de canas parcialmente desabado. Talvez um estábulo pertencente a camponeses há muito abandonado. Um abrigo perfeito para estacionar as viaturas em noite de observações.

Os três chegaram junto do casebre ao mesmo tempo e não puderam conter o desagrado pela companhia inesperada dos colegas. Refeitos da surpresa inicial e já resignados, resolveram entrar.

No interior depararam com um casal. A mãe segurava ao colo uma criança recém-nascida. Perante a crueza do cenário, um deles ofereceu o próprio casaco para cobrir a criança. O segundo foi buscar ao carro uma manta, enquanto o terceiro oferece o seu lanche, gesto seguido de imediato pelos outros. Partilharam tudo aquilo que tinham.

Enquanto partia o pão, a jovem mãe ergue os olhos em agradecimento enquanto o companheiro sorri benevolamente. Com voz baixa para não acordar o menino, pergunta:

- Muito obrigado pelo vosso gesto. Como se chamam, senhores?

- O meu nome é Baltazar – responde o primeiro.

- Chamo-me Belchior – replica o segundo.

- Gaspar. – Retorquiu o último.

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13 comentários

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De imsilva a 15.12.2020 às 18:31

Adorei.
A modernidade a chegar a todo o lado...até a Belém.
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De Santiago Miral a 16.12.2020 às 10:43

A modernidade é como o Natal, acaba por chegar a todo o lado.

Obrigado, imsilva.
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De olhosqueleem a 15.12.2020 às 18:34

Muito bonito este conto de Natal.

Em vez do Deus menino na sua manjedoura a quem os reis magos ofereceram ouro, incenso e mirra como gestos de amor, tu transportas os reis magos para um cenário idêntico de uma família com uma criança recém-nascida, num cenário de pobreza extrema e cada um partilha um pouco do que tinha, desde o agasalho à comida.
Na realidade é interessante ver que o teu conto de natal nos transporta do lado divino para o lado humano, igualmente pobre, sem recursos e que todos podemos partilhar um pouco de nós neste Natal com alguém necessitado, com a mesma humildade que o fizeram as personagens do texto.

E termino:

O objeto luminoso foi-se aproximando e todos puderam ver sem os seus telescópios que era uma estrela, que iluminou o casebre de claridade. Ali não havia mais escuridão, nem sombra, nem tristeza... o brilho dos Anjos iluminou a vida de todos.

Ana

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De Santiago Miral a 16.12.2020 às 10:43

Obrigado pelo teu comentário, Ana

Natal pode ser resultado da curiosidade dos homens, uma curiosidade traduzida em chamamento. Poderia haver Natal sem esse chamamento? E nós, que chamamentos escutamos? E quantos ignoramos? Urge o aparecimento de Estrelas que nos guiem e Anjos que nos conduzam.

Bem haja, Ana

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De Anónimo a 16.12.2020 às 10:21

Quem faz o Natal para todos nós? São os amigos
Quem nos dá prazer e dá calor? São os amigos
A quem é que damos a ternura? É aos amigos
A quem é que damos o melhor? É aos amigos
(Ary+J.Pessoa)
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De Santiago Miral a 16.12.2020 às 10:43

Olá, Anónimo.

É verdade. Já não ouvia os Operários de Natal há alguns anos. Para os que não se recordam, deixo aqui um cheirinho:

https://www.youtube.com/watch?v=3Kk4RIdYZW8
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De Aqui há coração a 19.12.2020 às 19:00

Os reis magos dos dias de hoje! Precisamos de tantos mais. Feliz Natal
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De meuqueridooutono a 22.12.2020 às 12:13

Santiago,

Boas Festas com saúde, paz , amor, partilha...

Mariana
_____
Oh amiguinho tens sorte que aqui a internet é paga e só este café é que tem , não nos podemos esticar Feliz Natal, não comas muitos doces (guloso) e daqui a uns dias estamos aí.
Ainda somos do Sporting
Lemos o teu conto de Natal, nós escrevemos um mas não conseguimos publicar. Alentejo, Alentejo ...só é fixe no Verão.

Henrique e André.
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De Santiago Miral a 24.12.2020 às 23:49

Olá Mariana, Henrique e André.

Embora sabendo que estão longe e quase incontactáveis (a falta que a net nos faz!), faço votos que passem um Natal com tudo de bom e que tenham oportunidade de espalhar a vossa solidariedade e espirito de partilha, sempre com o vosso fantástico sorriso e a vossa alegria.

Mesmo que o tempo e o lugar não seja o ideal, que seja o possível, para que o próximo seja melhor.

Um enorme abraço do Ti Santiago e Booooas Festas!
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De silabasdeagua a 23.12.2020 às 14:12

Ficam os meus votos sinceros de Boas Festas
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De Santiago Miral a 24.12.2020 às 23:52

Boas Festas, silabasdeagua.

Que tenhamos a capacidade de transformar este Natal possível em algo que faça a diferença.

Muito obrigado e votos de Boas Festas.
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De olhosqueleem a 24.12.2020 às 13:49

Boas Festas para ti e família.

Foi um ano de preocupações e incertezas, que nos pôs à prova e exigiu muito de todos.
Apesar de tudo não podemos perder a esperança e devemos continuar otimistas em relação ao futuro. Um 2021 com saúde.
Um Natal de paz e harmonia.

Ana
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De Santiago Miral a 25.12.2020 às 00:01

Obrigado, Ana.

Que a exigência deste ano e a incerteza deste Natal sejam apenas um exercício de fortalecimento para um futuro mais próspero. Faço votos para que consigamos aprender a olhar para além do consumismo e da superficialidade.

Na verdade, os anjos existem. Basta olhar para as urgências dos hospitais, para os que percorrem as ruas distribuindo pão a quem nada tem, para os que se voluntariam para ajudar em instituições de ajuda ao próximo. Enfim, para todos os que se esquecem de si próprios e passam os dias a ajudar.

Saúde e Paz para ti e para todos os que te rodeiam, Ana.

(Está a bater a meia noite)

Boas Festas

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