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O Orador

por Santiago Miral, em 07.12.20

orador.jpg

- Hoje é um dia histórico. – Gritava aquele homem de gestos determinados, moldado decerto por rigoroso exercício e pela dureza de uma carreira militar. Parecia, no entanto, deter a estranha capacidade de manter em suspenso, apenas com palavras, aquela inflamada plateia.

– Garanto-vos - continuou - que este dia será comemorado para sempre. Há mais de duas décadas que travamos esta luta desigual que hoje dou por terminada.

Subitamente, um dos soldados que flanqueava o líder, não se conseguindo conter, aproximou-se do microfone e, erguendo a arma, gritou:

- Somos livres!

E logo o auditório, exaltado, bradou:

- Somos livres, somos livres! Morte às máquinas.

- É, pois, hora de recomeçar. – Indicou o orador, e continuou. - Desde 2020, ano em que os governos activaram o Gama 10, o primeiro colosso dotado de Inteligência Artificial, que deixámos de ter repouso; com as desculpas do controlo da pandemia que então ceifava vidas todos os cantos da Terra, as nossas conversas passaram a ser escutadas, as nossas movimentações registados, os segredos mais recônditos passaram a ser escrutinados e usados contra nós, condenando ao fracasso todas as tentativas de organizar uma Resistência forte… até ao momento em que decidimos comunicar apenas pessoalmente, olhos nos olhos. Ainda assim, as máquinas detentoras da nova tecnologia não tardaram a infiltrar-se, criando novos engenhos de aspecto humano, que levaram a população quase ao extermínio.

- Morram as máquinas! – Bradou o mesmo soldado.

- Hoje, finalmente, – esclareceu o líder - terminámos com todos esses opressores biónicos, destruindo-os sem piedade. Acabaram-se as máquinas e nós somos os únicos sobreviventes desta guerra. Depois de entrarmos neste comboio que nos espera, em poucas horas estaremos nas nossas casas e voltaremos ter tudo o que perdemos. Agora somos todos humanos!

- Somos todos humanos! Somos todos humanos! – Repetia o povo com cego entusiasmo, enquanto uma forte chuva começava a cair no recinto. Encharcado e sem arredar pé, o orador abre os braços e grita:

- Viva a liber…liber…liber…liber…crrrrrrrrrrrrrrrrrrr...

E, tombando lentamente para trás enquanto soltava espessas nuvens de um fumo cinzento, estilhaçou-se no chão em mil pedaços.

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2 comentários

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De Tri a 11.12.2020 às 09:38

Que texto fantástico!
Com uma descrição assustadora de tão real...o futuro dizem, mas já não está assim tão longe.
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De Santiago Miral a 11.12.2020 às 10:01

Obrigado, Tri
Gostei que tivesse gostado.
O futuro é apenas o resultado do presente, de todos os presentes.
Apareça mais vezes; afinal, o espaço é nosso.

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