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O Mito do Besouro

por Santiago Miral, em 24.09.20

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No mundo dos insectos, onde frequentemente me inspiro, podemos encontrar criaturas com hábitos muito peculiares. Há dias, num dos meus passeios pelo campo, deparei com uma espécie de besouro que, com resignada pressa, lá ia empurrando a sua bolinha de estrume múltiplas vezes maior e mais pesada que o seu próprio corpo. Para os que não sabem, este estranho insecto tem o hábito de recolher as fezes de outros animais, moldando depois uma bola que transporta vagarosamente durante longas distâncias e da qual se alimenta. Há quem diga que esse aglomerado de nutritivo material orgânico serve também de protecção às suas crias nos primeiros tempos (não deixa de ser admirável como a Natureza nos mostra a necessidade de reduzir os desperdícios).

A minha curiosidade pela estranha prática daquele insecto levou-me a procurar um lugar confortável e sossegado que me permitisse observá-lo melhor. Escolhi sentar-me junto a uma árvore de densa folhagem que, em troca, me ofereceu abrigo e sombra. O silencio era quase total, exceptuando uma ou outra ave namoradeira que, naquele fim de Primavera, ainda ansiava por encontrar o seu par. Depressa a minha atenção se centrou no besouro que prosseguia, imperturbável, a sua jornada.

“Que animal curioso, onde terás aprendido a fazer isto?”, questionei de forma retórica. Contudo, não podia deixar de pensar que aquela lenta e árdua tarefa  mais se assemelhava a um fardo, a um qualquer encargo do qual ele não podia fugir – mesmo que quisesse -, um suplício esgotante, porém, inadiável.

Aos poucos, absorto na contemplação daquele tipo de escaravelho e como consequência do calor que se fazia sentir, acabei por adormecer. Foi naquele misto indizível entre o sonho acordado e a vigília dormente que escuto uma voz, agradável e enérgica, que objectou:

- Nunca um ser humano mostrou tanta curiosidade neste meu modo de vida. Por essa razão, poderemos falar durante breves momentos.

Atónito com este estranho prodígio, comecei por me apresentar, enquanto me levantava rapidamente, esfregando os olhos:

- Boa tarde, o meu nome é Santiago. E tu, como te chamas?

- Sísifo. – respondeu, imperturbável. – O meu nome é Sísifo.

 

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2 comentários

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De João-Afonso Machado a 27.09.2020 às 11:23

E o coitado não tinha de ser condenado. Trabalha para comer e ainda para a salubridade so outroa.
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De Santiago Miral a 27.09.2020 às 12:57

Tem toda a razão, caro João-Afonso Machado.

De facto, a única condenação que ele pode lamentar foi a de ter nascido besouro.

Poder-se-á sempre dizer que cada um é para o que nasce. Se assim não fosse, daqui a pouco estaríamos aqui a discutir Santo Agostinho e o livre-arbítrio.

Um excelente Domingo.

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