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O Cativeiro

por Santiago Miral, em 10.12.20

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Fere-me o medo – um medo horrível - de ter de continuar a viver, dia após dia, nesta angústia. Na verdade, nem sei se é o medo ou a revolta que mais me consome; afinal sou - ainda sou, caramba – um temível guerreiro. Aqui aprisionado, neste lugar imundo, preencho as noites invocando sonhos e memórias de um passado glorioso e próspero: faço desfilar, de olhos semicerrados, as várias batalhas em que saí vencedor ou, no início da Primavera, as tardes em que pescava trutas com os meus filhos ainda pequenos - o que eles se divertiam. Se não fosse a minha curiosidade ainda estaria junto deles.

Recordo-me bem daquele desventurado dia em que fui preso; aquele acampamento tinha algo estranho, eu sentia-o. Aproximei-me demasiado quando uma luz fortíssima, misturada com gritos, me ofuscou por momentos; um forte estampido fez-me estremecer e, lentamente, senti que tudo se apagava.

Algum tempo depois acordei, manietado e sem forças, entre várias pessoas que me observavam. Apercebendo-me que nada podia fazer, rendi-me ao inevitável e deixei-me adormecer para, finalmente, acordar neste horrendo cativeiro. Já perdi a conta aos anos que aqui estou mas, ao longo do tempo, há uma ideia fixa que não me abandona: Vou fugir. – e será hoje.

Tenho, nestes últimos dias, estudado cuidadosamente os movimentos do guarda e já percebi que há ali um momento que posso aproveitar. Shiu! Ele vem agora aí e não posso desperdiçar a oportunidade, é agora ou nunca.

Bruscamente, empurro-o e corro para a rua a toda a velocidade. Consegui. Finalmente posso cheirar o ar fresco da liberdade. Cá fora, contemplo o verde das árvores enquanto o ar puro da liberdade me enche os pulmões.

Subitamente, um som agudo ecoa no ar dando lugar a uma voz forte: “ Atenção, Atenção! Pedimos aos visitantes do Zoo que se dirijam calma e ordenadamente para a saída norte, o urso pardo acaba de fugir da jaula!”

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8 comentários

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De João-Afonso Machado a 10.12.2020 às 22:55

Hoje anda entre o Processo e a Metamorfose.

Mas muito bem!
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De Santiago Miral a 10.12.2020 às 23:06

Bem visto, caro Amigo.

Embora o texto já seja requentado, hoje deu-me para isto. Numa breve consulta à árvore de costados do pobre urso-pardo, é provável que ainda encontremos alguma ligação à família Samsa.

Abraço.
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De olhosqueleem a 11.12.2020 às 00:13

Li de forma muito breve o teu texto...
Muitas vezes nós criamos os nossos cativeiros, pelo medo de sofrer, pela angústia, por mil razões...

Mas quando somos capazes de fugir da jaula, de nos libertar, de sermos nós de novo, tudo se restabelece.

Ana
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De Santiago Miral a 11.12.2020 às 12:28

É a mais pura das verdades, Ana.

Quantas vezes vivemos encerrados na nossa própria existência, aprisionados nos nossos próprios problemas, encarcerados em inúmeras jaulas onde a vida nos coloca. Contudo, esquecemo-nos que culpar a vida é apenas uma vã tentativa de inocentar as nossas más decisões, as nossas omissões, os nossos actos.
E é quando nos sentimos inocentes que o cativeiro se torna mais doloroso.
Libertemo-nos, pois!

Abraço

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De Tri a 11.12.2020 às 09:39

Ainda bem que descobri aqui o seu cantinho, fico extasiada com os seus textos.
Parabéns.
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De Santiago Miral a 11.12.2020 às 10:15

Muito obrigado, Tri.

Normalmente partilho pequenos textos avulso que - espero - hão-de fazer sentido para alguém. Por vezes vou buscar textos mais antigos, mas sempre da minha autoria, alguns que foram entretanto apagados do blogue por terem sido praticamente ignorados quando foram publicados. Este texto foi um desses casos.

Acredito que para tudo há um tempo e, na verdade, talvez ainda não tivesse chegado o tempo deles.

Grato pela sua presença e comentários.
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De cheia a 11.12.2020 às 18:54

Muito bom!
Boa noite!
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De Santiago Miral a 11.12.2020 às 19:31

Obrigado, cheia.
Noite feliz.

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