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Formatados

por Santiago Miral, em 22.09.20

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Nasci ao amanhecer de um luminoso dia de sol.

Ser vomitado neste mundo independentemente da nossa vontade é algo que, de inicio, pode parecer estranho. Depois percebi que a minha vinda tinha sido a resposta – punição ou prémio - a um determinado acto de um par de seres como eu. Consigo ver os seus rostos em corpos completamente quadrados, de faces planas como azulejos, encarando-me com um sorriso indecifrável. Parecem felizes, e eu sei o que é felicidade. Creio que um dia também irei sentir o mesmo.

Percebo que há algo de visceralmente estranho em mim. Admito que deveria ter uma consciência vazia (afinal, acabo de nascer) mas, na verdade, consigo interpretar – e relatar – cada uma das sensações que me invade. É como se fosse, de tempos a tempos, trespassado por nuvens coloridas, cada uma com o seu odor e paladar próprios. É curioso, tenho uma mente repleta de conceitos mas, estranhamente, esvaziada de juízos de valor. Espero evoluir.

Ao crescer e ao tomar consciência do meu próprio corpo, verifico que, contrariamente a todos os outros que conheço, ele é redondo, esférico, sem uma única linha recta e, rapidamente, tomei consciência da minha diferença. Era frequente ver nos olhos dos outros sentimentos como inveja ou nostalgia. Murmuravam sempre qualquer coisa antes de se afastarem de mim.

Certo dia de um mês desconhecido, os meus progenitores decidiram que era altura de me depositarem às portas do Futuro, uma longa escadaria cujo final não era alcançável pelos olhos físicos. Tudo o que se sabia sobre aquela escadaria não passava de lendas antigas. É claro que cada um tentava preencher as suas dúvidas através de fantasias e conjecturas.

Tinha sido devidamente preparado e sentia-me pronto a enfrentar a prova. Éramos vários a concorrer e, após as derradeiras despedidas, partimos como loucos, cada qual a seu ritmo.

Fiquei maravilhado ao entrar na escadaria do Futuro. Um corredor afunilado estendia-se à minha frente. Não era uma escadaria monotona e infinita como imaginara, já que espaçadamente apresentava alguns patamares onde se podia repousar um pouco. Cada um desses patamares dispunha de uma porta de vidro fosco ladeada de um postigo com um porteiro sorridente. Os menos pacientes tentaram entrar nas primeiras portas. Quando estas se fechavam, escutavam-se gritos que se tornavam cada vez mais longínquos. Depressa percebi que as primeiras portas encerravam uma espécie de castigo, conduzindo os mais impacientes ao início da prova. Teriam de começar tudo de novo.

Os gritos eram uma constante, mas eu conseguia decifrar-lhes os sentimentos: uns de terror, outros de perturbação, outros de alegria… Nem tudo parecia ser mau.

Já bastante longe, ofegante e de pernas fatigadas, optei por esperar um pouco. A escadaria já se encontrava quase deserta. A medo, abri a porta que estava mais próxima. No vestíbulo estava já um dos meus companheiros que tinha ficado muito para trás – como era possível? Sorridente, depositava nas mãos do porteiro um estofado envelope. Irritado, saí dessa porta e recomecei a subir.

Com lagrimas de raiva, cheguei a novo patamar. O porteiro acenou-me e abriu-me a porta. Entrei.

O espaço era grandioso mas demasiado cinzento. O porteiro, embora agradável, tinha um aspecto de serpente, de corpo esguio e sinuoso. De discurso ciciante, pediu que o seguisse. Aqueles escassos metros pareceram quilómetros a caminhar sobre uma lama espessa e viscosa. Por fim, pediu que entrasse numa sala muito brilhante. Uma sala que continha uma enorme coluna de mármore sobre a qual estava instalado um ser gelatinoso de lábios sorridentes e olhar cruel. A única peça de roupa que usava era uma gravata de seda.

Enquanto comentava algo com palavras incompreensíveis, agitava nas mãos um par de correntes que prendiam dois animais ferozes, que o acompanhavam sempre. À coluna estavam presas mais um sem-número de correntes que saiam por uma janela alta.

Contudo, o porteiro parecia ter compreendido toda aquela ladaínha e fez-me sinal para sair. Ao chegarmos ao exterior, deu-me os parabéns por ter escolhido aquela porta e indicou-me que tinha sido selecionado para integrar aquele grupo e, aos empurrões, levou-me para um novo espaço, também ele enorme e coberto de uma estranha névoa, onde eram visíveis varias caixas pequenas de madeira que flutuavam. De cada uma pendia uma corrente que se dirigia à sala do ser gelatinoso. Pediu-me para entrar numa delas e disse-me que me iriam ser dadas oportunidades de crescer se fizesse o que era suposto fazer. Deu-me um carimbo e papeis e indicou-me a minha tarefa.

Rotineiramente, passei dias a carimbar papeis. Repetidamente, passei semanas a carimbar papeis. De vez em quando sentia o agitar das correntes que sacudiam todas as caixas que flutuavam. Era sinal que deveria carimbar mais e mais, cada vez com mais fervor, com mais devoção. Cresci e sentia-me cada vez mais apertado e desconfortável.

Passei anos a carimbar papeis até que uma doença súbita os obrigou a retirarem-me da caixa. Já não era rentável.

Foi quando, pela primeira vez depois de todos este tempo, me vi ao espelho.

Devido ao formato da caixa onde estivera encerrado, o meu corpo era agora completamente... quadrado.

 

https://www.youtube.com/watch?v=wUmkluEHnmc

 

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