Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Solidão Partilhada

por Santiago Miral, em 30.09.20

nazaré.jpg

Conhecemo-nos junto ao ascensor da Nazaré no início dos anos 80 do século passado. Quase todas as noites, após o jantar, o encontrava por ali, numa daquelas cadeiras junto ao cais de embarque; sempre de fato preto e camisa branca, rosto atento e sisudo, mãos magras e ossudas apoiadas na extremidade curva de uma bengala de madeira quase tão velha como ele. Assim permanecia imóvel, horas a fio, observando quem passava.

Quando faltavam apenas dois dias para terminar as férias, e sem que me recorde o pretexto que serviu de origem a este encontro, estávamos já sentados a conversar numa das muitas esplanadas que existem nas imediações. Contou-me que lhe chamavam Andorinha, alcunha simpática com que fora brindado há umas décadas por um grupo de miúdos da Colónia Balnear devido às cores da sua roupa e ao facto de todos os anos ter casa alugada no mesmo local. Este gracioso epiteto pegou e passara a acompanhá-lo ao longo dos ultimos anos. Falou-me também da mulher e do filho que já não deviam tardar, pois tinham ido ao Sítio, às Festas em honra de Nossa Senhora da Nazaré. Ele não ia, que era pouco dado a festas e confusões e que ali sempre podia pensar na vida. Gostava, sobretudo, de conjecturar sobre as razões de viver de cada uma daquelas pessoas que, apressadamente, por ali passava subindo e descendo.

- Já viu aquele casal que ali vai? – Questionou, apontando em frente – Quase não falam nem se olham. Percebemos que são um casal apenas pela criança que os acompanha.

E lançando um olhar para a rampa do ascensor que se estendia em direcção ao céu, como se não fosse mais que a versão humanizada da escada de Jacob, interrogou-me com ar pensativo:

- Já reparou como aquele casal é parecido com estas cabinas que sobem e descem? Também elas, embora amarradas entre si por fortes cabos, raramente se encontram; e quando têm a possibilidade de o fazer, é precisamente no ponto em que se começam a afastar. Sem o saberem, vivem continuamente numa solidão quase completa. – E, olhando-me nos olhos, concluiu – O meu maior medo é vir um dia a ser alguém solitário, percebe?

Limitei-me a sorrir de forma desajeitada, talvez por não encontrar palavras que pudessem responder a esta demanda filosófica. Possivelmente embaraçado com a fraqueza que demonstrara ou devido à minha falta de resposta, o Andorinha levantou-se e despediu-se rapidamente para ir ter com a família que, segundo ele, já deveria vir ao seu encontro.

No dia seguinte, muito cedo, encontrando-me quase no mesmo local para o primeiro café da manhã, avisto-o a aproximar-se lentamente. Inquieto, foi o primeiro a falar:

- Sabe, ontem contei à minha família que estive aqui consigo e que me fez companhia. A minha mulher, por gratidão, pediu-me que lhe entregasse estes bolos-de-cabeça. Fê-los propositadamente para si, aproveite que estão fresquinhos e é uma receita lá da minha terra. - E continuou, em jeito de justificação - Ela pede desculpa por não vir, mas foi ao mercado buscar peixe para o almoço e o meu filho foi ajudá-la com o automóvel. Nestas idades ingratas já não podemos com uma gata pelo rabo. - Dito isto, soltou uma enorme gargalhada que nunca esquecerei. O Andorinha, desta vez, irradiava felicidade.

- A propósito, - interrompeu-me com o dedo indicador em riste, embora trémulo – Quase me esquecia. O meu filho também me pediu que lhe entregasse esta lembrança. É que hoje, ao final do dia, já nos vamos embora.

E, metendo a mão no bolso interior do casaco, retirou uma pequena andorinha de cerâmica de aspecto antigo (não me surpreenderia que fosse das primeiras que Rafael Bordallo Pinheiro registou em finais do séc. XIX e que se tornaram uma moda nas décadas subsequentes). Em seguida, puxou um maço de papéis preso por um pequeno fio de onde arrancou um cartão-de-visita amarrotado. Cuidadosamente, juntou os dois objectos colocando-os na palma da minha mão enquanto, delicadamente, me apertava os dedos contra eles:

- Tem aí também a nossa direcção. O senhor podia escrever-nos de vez em quando. Pode ser?

Agradeci a gentileza daquela família e confirmei que sim, que lhes enviaria uma carta em breve.

Contudo, apenas na quadra de Natal me lembrei de lhes enviar um postal de Boas Festas; porém, nunca recebi resposta. Talvez tivessem ficado sentidos pelo meu atraso ou talvez me tivessem esquecido. Alguns meses depois resolvi endereçar-lhes nova correspondência; desta vez uma carta, também sem qualquer resposta.

Por fim, já num fim de semana de Abril, resolvi fazer-lhes uma visita. Com isto iria certamente apaziguar qualquer desconforto que pudesse existir.

A casa não foi fácil de encontrar, mas quando finalmente cheguei, deparei-me com uma pequena habitação de barra amarela, uma acanhada porta de madeira com a tinta a descascar e duas janelas estreitas e fechadas. Sobre o postigo estava uma pequena chapa de metal com uma inscrição quase ilegível onde, com algum esforço, consegui perceber a palavra “Andorinha”.

Como parecia não haver ninguém, bati com alguma força mas não obtive resposta. Insisti. Do outro lado da rua, e um pouco mais abaixo, senti que se abria receosamente uma janela, dando lugar a uma tímida senhora de lenço muito justo a quem perguntei:

– Desculpe, mas é aqui que mora o senhor Andorinha?

- O Andorinha? - Inquiriu com espanto - Sim, é essa a casa, mas ele faleceu para aí há uns seis meses. Só deram por ele mais de uma semana depois, coitado.

- E sabe dizer-me onde posso encontrar a mulher e o filho? – Perguntei, em choque, querendo saber mais pormenores.

– Então o senhor não sabe? – Perguntou a senhora, visivelmente surpresa - O filho já morreu há muitos anos na Guerra do Ultramar e a mulher, coitadita, finou-se logo a seguir. Desgosto de mãe, foi o que foi. Já quase nem me lembro deles e já moro aqui há mais de trinta anos.

Lentamente, e quase sem forças, sentei-me no degrau da casa e, com o rosto escondido nas mãos, chorei como uma criança.

Aquele homem, que tanto apreciava a companhia, vivia há décadas, e sem que me apercebesse, numa profunda solidão. Uma solidão aliviada apenas pela partilha daquilo que sempre amara. Os bolos da esposa ou a andorinha do filho era apenas parte do seu mundo, da sua solidão, que fez questão de partilhar comigo.

A verdade é que o Andorinha - como ele gostava de ser recordado – partira. Tal como as andorinhas que em cada Primavera se deslocam para zonas de clima mais ameno, afastando-se novamente assim que o tempo se torna insuportável, também o Andorinha cumprira esse ritual, esse ciclo e, tal como as andorinhas que partem, também ele abandonara o seu próprio ninho – agora completamente vazio.

Aquela andorinha não voltará jamais.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O Mito do Besouro

por Santiago Miral, em 24.09.20

01_3.jpg

 

No mundo dos insectos, onde frequentemente me inspiro, podemos encontrar criaturas com hábitos muito peculiares. Há dias, num dos meus passeios pelo campo, deparei com uma espécie de besouro que, com resignada pressa, lá ia empurrando a sua bolinha de estrume múltiplas vezes maior e mais pesada que o seu próprio corpo. Para os que não sabem, este estranho insecto tem o hábito de recolher as fezes de outros animais, moldando depois uma bola que transporta vagarosamente durante longas distâncias e da qual se alimenta. Há quem diga que esse aglomerado de nutritivo material orgânico serve também de protecção às suas crias nos primeiros tempos (não deixa de ser admirável como a Natureza nos mostra a necessidade de reduzir os desperdícios).

A minha curiosidade pela estranha prática daquele insecto levou-me a procurar um lugar confortável e sossegado que me permitisse observá-lo melhor. Escolhi sentar-me junto a uma árvore de densa folhagem que, em troca, me ofereceu abrigo e sombra. O silencio era quase total, exceptuando uma ou outra ave namoradeira que, naquele fim de Primavera, ainda ansiava por encontrar o seu par. Depressa a minha atenção se centrou no besouro que prosseguia, imperturbável, a sua jornada.

“Que animal curioso, onde terás aprendido a fazer isto?”, questionei de forma retórica. Contudo, não podia deixar de pensar que aquela lenta e árdua tarefa  mais se assemelhava a um fardo, a um qualquer encargo do qual ele não podia fugir – mesmo que quisesse -, um suplício esgotante, porém, inadiável.

Aos poucos, absorto na contemplação daquele tipo de escaravelho e como consequência do calor que se fazia sentir, acabei por adormecer. Foi naquele misto indizível entre o sonho acordado e a vigília dormente que escuto uma voz, agradável e enérgica, que objectou:

- Nunca um ser humano mostrou tanta curiosidade neste meu modo de vida. Por essa razão, poderemos falar durante breves momentos.

Atónito com este estranho prodígio, comecei por me apresentar, enquanto me levantava rapidamente, esfregando os olhos:

- Boa tarde, o meu nome é Santiago. E tu, como te chamas?

- Sísifo. – respondeu, imperturbável. – O meu nome é Sísifo.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Liberdade ou morte

por Santiago Miral, em 23.09.20

image.jpg

Dia 1

Tudo me leva a crer que irei morrer amanhã.
Afinal de contas, que saberei eu sobre a morte? A verdade é que, depois de ouvir o que ouvi, sinto como se uma ferida profunda tivesse sido aberta no meu peito ou, se ouso dizer, da minha alma!
Sempre fui o centro das atenções. Eu era aquela que, entre uma carícia e um suave canto, recebia aquilo que pensava ser todo o amor do mundo (como me enganava!). Reconheço que este tratamento especial me possa ter transformado num ser exigente e egoísta. Sim, adoro conforto – alguém se atreve a censurar-me por isso? Sempre fui feliz assim; mas amanhã tudo irá acabar.
Aos poucos comecei a perceber que, independentemente das minhas súplicas, todos me têm vindo a preparar para o que irá acontecer (pensarão certamente que sou ingénua). Esta manhã, ainda o sol não tinha dado a segunda demão no horizonte, já a minha mãe me informava que não era admissível manter-me aqui nem mais um dia tendo rematado, de seguida, a dolorosa notícia: “A tua partida será amanhã.”
Não imaginam o pavor que senti ao escutar aquela afirmação; um terror profundo invadiu-me a ponto de não conseguir conter um grito estridente de dor.
Mas foi ditado o veredicto. Eu não merecia isto; irei suicidar-me contra a minha vontade?

Dia 2

Subo, trémula, para a beira do abismo, inspiro profundamente. Depois, sentindo próximo o beijo da morte, abandono-me com a mente e a visão no infinito. “Só espero que este voo seja curto e o desfecho, tanto quando possível, indolor”, pensei. 
Mas – que assombro - ao sentir-me planar tão graciosamente e sem dificuldades apercebo-me que, ao invés da morte, encontrei a liberdade.
Senti, pela primeira vez, o prazer de ser gaivota.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Traça

por Santiago Miral, em 22.09.20

123.jpg

A divisão era pequena, de planta quadrada e rodeada de livros. O horizonte, assustadoramente próximo.

Refastelada num cantinho de parede, a traça tivera uma revelação.

Ora eu – dizia ela – investi o melhor tempo da minha vida naquela fase de crisálida, alimentando-me dos mais  saborosos livros, preparando-me para o mundo cá fora. É bom que disso seja recompensada.

Com muita lábia e persuasão, reuniu toda a bicharada que, habituada ao encerado chão de tacos, nunca tinha visto ninguém voar. Arranjou logo centenas de seguidores.

Dito isto, tomou posse do relógio de madeira da biblioteca, que sempre lhe provocara algum desejo. Por não encontrar oposição, passara a ser seu.

La dentro, num pequeno espaço livre, montou o seu escritório que mandou decorar com tudo o que de mais caro havia. Ordenou até à aranha que lhe tecesse uns reposteiros com as suas iniciais.

Depois, num curto passeio pelo interior, ficou maravilhada com tantas peças brilhantes que trabalhavam, organizadas, gerando aquele tic-tac pacificador.

- Uma das coisas que aprendi enquanto estudava no meu casulo é que tudo pode ser melhorado, optimizado, reinventado. – disse para os seus seguidores. E continuou - Este relógio produz tempo, mas porque temos nós de produzir sessenta minutos por hora? Porque não setenta, oitenta ou talvez mais? Se todos nos esforçarmos muito faremos certamente muito melhor. Exigirei que cada um dê o seu melhor, que seja polivalente, resiliente e proactivo.

Durante dias debateu-se com folhas de cálculo, analisou relatórios e obrigou formigas a trabalhar fora de horas. - Downsizing é a solução. – Opinou. - Dispensaremos as peças supérfluas, a organização será mais fluida, mais leve e, em pouco tempo, seremos líderes de mercado.

E, num relance, escolheu algumas peças que poderia dispensar.

Arrancou-as do seu lugar e… o relógio parou.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Formatados

por Santiago Miral, em 22.09.20

c511bd02158e107567b825a3554dc8fe.jpg

Nasci ao amanhecer de um luminoso dia de sol.

Ser vomitado neste mundo independentemente da nossa vontade é algo que, de inicio, pode parecer estranho. Depois percebi que a minha vinda tinha sido a resposta – punição ou prémio - a um determinado acto de um par de seres como eu. Consigo ver os seus rostos em corpos completamente quadrados, de faces planas como azulejos, encarando-me com um sorriso indecifrável. Parecem felizes, e eu sei o que é felicidade. Creio que um dia também irei sentir o mesmo.

Percebo que há algo de visceralmente estranho em mim. Admito que deveria ter uma consciência vazia (afinal, acabo de nascer) mas, na verdade, consigo interpretar – e relatar – cada uma das sensações que me invade. É como se fosse, de tempos a tempos, trespassado por nuvens coloridas, cada uma com o seu odor e paladar próprios. É curioso, tenho uma mente repleta de conceitos mas, estranhamente, esvaziada de juízos de valor. Espero evoluir.

Ao crescer e ao tomar consciência do meu próprio corpo, verifico que, contrariamente a todos os outros que conheço, ele é redondo, esférico, sem uma única linha recta e, rapidamente, tomei consciência da minha diferença. Era frequente ver nos olhos dos outros sentimentos como inveja ou nostalgia. Murmuravam sempre qualquer coisa antes de se afastarem de mim.

Certo dia de um mês desconhecido, os meus progenitores decidiram que era altura de me depositarem às portas do Futuro, uma longa escadaria cujo final não era alcançável pelos olhos físicos. Tudo o que se sabia sobre aquela escadaria não passava de lendas antigas. É claro que cada um tentava preencher as suas dúvidas através de fantasias e conjecturas.

Tinha sido devidamente preparado e sentia-me pronto a enfrentar a prova. Éramos vários a concorrer e, após as derradeiras despedidas, partimos como loucos, cada qual a seu ritmo.

Fiquei maravilhado ao entrar na escadaria do Futuro. Um corredor afunilado estendia-se à minha frente. Não era uma escadaria monotona e infinita como imaginara, já que espaçadamente apresentava alguns patamares onde se podia repousar um pouco. Cada um desses patamares dispunha de uma porta de vidro fosco ladeada de um postigo com um porteiro sorridente. Os menos pacientes tentaram entrar nas primeiras portas. Quando estas se fechavam, escutavam-se gritos que se tornavam cada vez mais longínquos. Depressa percebi que as primeiras portas encerravam uma espécie de castigo, conduzindo os mais impacientes ao início da prova. Teriam de começar tudo de novo.

Os gritos eram uma constante, mas eu conseguia decifrar-lhes os sentimentos: uns de terror, outros de perturbação, outros de alegria… Nem tudo parecia ser mau.

Já bastante longe, ofegante e de pernas fatigadas, optei por esperar um pouco. A escadaria já se encontrava quase deserta. A medo, abri a porta que estava mais próxima. No vestíbulo estava já um dos meus companheiros que tinha ficado muito para trás – como era possível? Sorridente, depositava nas mãos do porteiro um estofado envelope. Irritado, saí dessa porta e recomecei a subir.

Com lagrimas de raiva, cheguei a novo patamar. O porteiro acenou-me e abriu-me a porta. Entrei.

O espaço era grandioso mas demasiado cinzento. O porteiro, embora agradável, tinha um aspecto de serpente, de corpo esguio e sinuoso. De discurso ciciante, pediu que o seguisse. Aqueles escassos metros pareceram quilómetros a caminhar sobre uma lama espessa e viscosa. Por fim, pediu que entrasse numa sala muito brilhante. Uma sala que continha uma enorme coluna de mármore sobre a qual estava instalado um ser gelatinoso de lábios sorridentes e olhar cruel. A única peça de roupa que usava era uma gravata de seda.

Enquanto comentava algo com palavras incompreensíveis, agitava nas mãos um par de correntes que prendiam dois animais ferozes, que o acompanhavam sempre. À coluna estavam presas mais um sem-número de correntes que saiam por uma janela alta.

Contudo, o porteiro parecia ter compreendido toda aquela ladaínha e fez-me sinal para sair. Ao chegarmos ao exterior, deu-me os parabéns por ter escolhido aquela porta e indicou-me que tinha sido selecionado para integrar aquele grupo e, aos empurrões, levou-me para um novo espaço, também ele enorme e coberto de uma estranha névoa, onde eram visíveis varias caixas pequenas de madeira que flutuavam. De cada uma pendia uma corrente que se dirigia à sala do ser gelatinoso. Pediu-me para entrar numa delas e disse-me que me iriam ser dadas oportunidades de crescer se fizesse o que era suposto fazer. Deu-me um carimbo e papeis e indicou-me a minha tarefa.

Rotineiramente, passei dias a carimbar papeis. Repetidamente, passei semanas a carimbar papeis. De vez em quando sentia o agitar das correntes que sacudiam todas as caixas que flutuavam. Era sinal que deveria carimbar mais e mais, cada vez com mais fervor, com mais devoção. Cresci e sentia-me cada vez mais apertado e desconfortável.

Passei anos a carimbar papeis até que uma doença súbita os obrigou a retirarem-me da caixa. Já não era rentável.

Foi quando, pela primeira vez depois de todos este tempo, me vi ao espelho.

Devido ao formato da caixa onde estivera encerrado, o meu corpo era agora completamente... quadrado.

 

https://www.youtube.com/watch?v=wUmkluEHnmc

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Papoila ou Cravo - que importa?

por Santiago Miral, em 17.09.20

b4--bg.jpg

Nas traseiras do palacete estendia-se um grande campo de malmequeres rodeado por uma cerca de madeira. Ao fundo, junto ao poço de rega de onde retirava o sustento com as suas fortes raízes, erguia-se um imponente girassol que, por ser mais alto, se intitulou líder. Como era muito dado a discursos, um dia afirmou:

- Sou mais alto e mais forte e todos me devem obedecer. Só eu tenho a capacidade de ver o que há fora da cerca e de vos trazer noticias do mundo. - E continuava - Para que tenham noção da minha importância, é bom que saibam que até o sol é meu amigo e me obedece. E, todos os dias, ao pôr-do-sol, gritava:

- Estás dispensado por hoje, sol. - E o sol recolhia-se lentamente no horizonte. A partir de dado momento, não sei se por simples loucura ou senil demência, o certo é que até o girassol passou a acreditar no seu poder.

Certo dia, o girassol fez-se amigo de um besouro que aparecera por ali. Era forte, de carapaça negra e mandibula afiada. Devido a um qualquer imprevisto perdera a capacidade de voar e ficara retido para sempre no campo de malmequeres. O girassol, aproveitando-se dessa fragilidade, estabeleceu com o besouro uma estranha simbiose.

Assim, era frequente que alguns malmequeres mais esclarecidos questionassem o girassol, uma vez que a água raramente chegava a todos. O girassol, ao sentir-se ameaçado, permitia que fosse o besouro a resolver o problema. Este, sempre pela calada da noite, aproximava-se do malmequer queixoso, fazia-lhe uma pequena incisão e bebia-lhe a seiva, deixando-o moribundo. A verdade é que uns secavam, outros nunca mais eram os mesmos.

A maioria dos malmequeres mais jovens nunca conhecera outro cenário e, para eles, o mundo não ia muito além daquele espaço. Os mais velhos, cabisbaixos, pouco comentavam. Passou-se muito tempo nesta paz inventada.

O girassol, já curvo da idade, mantinha ainda o seu lugar. É certo que já não mantinha o vigor de outros tempos e algumas das extremidades das folhas estavam já amarelecidas, mas as suas enormes raízes ainda conseguiam chegar à agua do poço, o que lhe permitia manter-se sempre nutrido.

Certo dia, um rouxinol mais atrevido, daqueles habituados a voar livremente e a pisar outros lugares, deixou cair -  talvez sem querer - uma minúscula semente entre os malmequeres. Ninguém reparou.

Passadas algumas semanas, naquele campo maioritariamente branco, surge um botão de papoila que abre timidamente. Devagar, solta as pétalas. Quatro pétalas vermelhas e, sobre elas um cálice triunfal nunca antes visto. Parecia uma gota de sangue que alastrava sobre um manto de neve.

- Uma afronta! Como se atreve a invadir-nos o nosso pacato espaço? Não vamos tolerar isto. – Afirmou o girassol, irritado. O besouro foi chamado, a missão foi delineada e, nessa mesma noite a papoila sucumbiu à investida do besouro.

Chamado ao girassol, o besouro relatou como resolveu o problema, tendo, no entanto, informado que aquela seiva é diferente das outras, tem outra consistência, é mais amarga e difícil de digerir chegando até a causar alguma desorientação. O girassol desvalorizou.

Passados alguns dias, no local onde sucumbira a desafortunada papoila, várias outras papoilas começaram a emergir do solo. O cálice das sementes fora derramado e o resultado estava à vista.

Convocado o besouro, a segunda missão também fora bem-sucedida e a maioria das papoilas estava agora aniquilada. No entanto, o besouro, desorientado com a seiva que ingeriu, ferira de morte uma boa quantidade de malmequeres. Durante toda a noite o besouro gemeu de dores. Aquela seiva perecia queimá-lo por dentro.

- Danos colaterais. Acontece. - Racionalizava o girassol.

Na semana seguinte, toda a parte leste estava povoada de papoilas. Aquelas papoilas desafiavam o poder do girassol.

- Acaba com isto de uma vez por todas. Amanhã cedo quero o problema resolvido. - Ordenou o girassol, enquanto empurrava o besouro para a nova tarefa.
Contudo, após as primeiras investidas, o besouro foi acometido de uma estranha loucura, atacando tudo e todos. Corria em círculos, desgovernado, de olhar enfurecido e com as entranhas em fogo, já sem saber o que fazia.

Subitamente dirige-se ao girassol e, com alguns golpes certeiros, corta-lhe o pé, derrubando-o. O girassol grita por socorro, mas verifica que não tem já qualquer amigo que o possa salvar. Para espanto de alguns (e talvez do próprio girassol), o sol continuou, indiferente, a observar do alto. O besouro, cego de raiva e com a mandibula ainda enterrada no caule, não se apercebe que acompanhará o seu amo nesta última viagem para o interior do poço. Segundos depois, escutam-se sons de gritos e de água agitada. Por fim, a calmaria.

Dizem que hoje aquele espaço é um campo de flores de todas as cores e espécies. Quanto à cerca de madeira; essa, caiu de podre.

https://www.youtube.com/watch?v=LgPJwhe86AY

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Mensageira

por Santiago Miral, em 13.09.20

aluna_professora.jpg

Manhã cedo, caminhando para a escola, me chegou do outro lado da rua:

- Ei, menina, você me faz um favor?

- Oi, seu Agenor. O que o senhor quer? – Seu Agenor era um homem que morava no fim da rua, mesmo no início da subida para o Morro Brabo. A gente do bairro dizia que ele era um policial que se aposentou porque fora baleado, por isso mancava um pouquinho. Tirando isso era um senhor bem charmoso.

- Você se importa de entregar essa carta aqui a sua professora? – Pediu ele, sorrindo, enquanto estendia na minha direcção um envelope fechado.

- Pois não, seu Agenor, entrego sim. – Respondi, enquanto pegava aquele envelope lindo, tão verdinho que fazia lembrar uma nota de cinco cruzeiros. Transportar um envelope fechado em sua própria mão desperta uma tal inquietação que preenche todos os seus pensamentos. Um envelope fechado encerra sempre um mistério - mesmo quando se sabe, ou se pensa saber, o seu conteúdo. No final de contas, é como um ovo de araponga, delicado e vulnerável, cujo conteúdo se conhece somente depois de abrir, revelando assim ser uma delícia ou uma desilusão.

Entre os vários cenários que imaginei (sou uma menina bem romântica, porém honesta demais para bisbilhotar), havia um que era bem óbvio: seu Agenor estava apaixonado pela professora Juracema. “Embora ele fosse mais velho, faziam um par bem bonito”, pensei.

Chegando à escola, corri para a professora, sorridente, como quem transporta uma carta de amor de um admirador secreto (hoje eu nao tinha a mínima dúvida). Que bom era ser a mensageira de tão feliz notícia.

- Professora – gritei -, esse envelope é para você. É de seu Agenor. – E com este remate, fiz questão de desfazer todo o secretismo.

A professora abriu lentamente o envelope e seus lábios principiaram a sorrir. “Ela também gosta de seu Agenor”, pensei.

Olhando para mim, D. Juracema falou:

- Obrigada pela carta, Maria. Meu pai é realmente um querido, não é mesmo? Está me convidando para jantar com ele na próxima sexta-feira.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Princesinha que o Tempo apagou

por Santiago Miral, em 13.09.20

07_o_principezinho_07_d.jpg

Carta encontrada no espólio de uma qualquer princesa cujo paradeiro se perdeu no tempo e, sobretudo, no espaço:

“Querido Principezinho,

Também eu era uma princesa que passava os dias sozinha num pequeno asteroide. Aqui há sempre pouco para fazer e eu, nos meus mais ociosos devaneios, idealizava o dia em que um príncipe como tu me viria resgatar. A primeira vez que te vi foi durante um pôr-do-sol. Recordo-me como se fosse hoje: deslumbrei-me com a tua silhueta recortada no disco dourado - parecias um anjo rodeado de uma aura muito luminosa. Foi aí, nesse preciso momento, que me apaixonei por ti. Passei os dias seguintes a observar-te, mas a extracção das raízes dos embondeiros mantinha-te sempre demasiado ocupado para perceberes que eu, sempre atenta, te observava. Apesar desse teu alheamento, decidi lutar por ti.

Bem sei que a tua simplicidade é sedutora, mas tinha necessidade de saber como te comportarias comigo. Decidi enviar-te a minha rosa para que cuidasses dela mas, ainda assim, aborreceste-te com os seus insistentes pedidos de mimo e abandonaste-a. Mais tarde, a minha escolha incidiu sobre a raposa fiel que, muito engenhosa, te transmitiu alguns dos meus segredos (lembras-te?). Cativaste-a rapidamente para também a abandonares e prosseguires em mais uma das tuas loucas e insensatas viagens.

Naquele momento perdeste-me mas conheceste os homens e os seus mundos e os homens conheceram-te também; talvez apenas encontrem em ti a criança inocente, impaciente e curiosa que cada um deles deixou morrer há muito. Entendeste a humanidade nos seus defeitos e imperfeições (contrapartidas que encontraram para compensar o facto de te ter perdido tão dolorosamente).

Por fim, enviei-te a serpente da saudade e sei que, depois daquele derradeiro toque, conseguiste, talvez demasiado tarde (como todos os homens), escutar a tua rosa que clamava por atenção e a tua raposa que reivindicava os laços que estabeleceste com ela. E assim, lentamente, cerraste as pálpebras…

Agora sei que, finalmente, entendeste a mensagem mais importante que te fiz chegar: “O essencial é invisível para os olhos".

Da sempre tua,

Princesinha.”

Autoria e outros dados (tags, etc)

IN-DI-FE-REN-ÇA

por Santiago Miral, em 11.09.20

untitled.png

Todos somos únicos e, por isso, diferentes. Apenas a condição humana permite que tomemos consciência dessa diversidade. Embora gostando de coexistir dentro da norma, sentimos uma necessidade quase compulsiva de evidenciar essa diferença; afinal é ela que nos identifica no meio desta imensa multidão. Um dia, certo homem - também ele diferente – percebeu que uma das melhores formas de desencorajar o seu semelhante, subjugando-o à sua vontade, era simplesmente recusar-se a reconhecer essa diferença: nasceu a INDIFERENÇA. Charles Favart chamou-lhe “o sono da alma”, definição demasiado frágil para aquilo que, para muitos é, tão-somente, uma morte em vida. É a diluição do seu próprio ser na amálgama de um todo indiferenciado, homogéneo e sem identidade. A indiferença gera, acima de tudo, um sofrimento paradoxal: é como deixar de existir completamente enquanto mantemos intacta a consciência dessa não-existência.

Pedro Lopes, 34 anos, solteiro, exímio técnico comercial, sabia isso perfeitamente mas, mesmo assim, arranjara finalmente um emprego; era INteligente e o seu sonho era fazer carreira e ser alguém. Passaram DIas, meses - anos talvez -, Pedro Lopes, 42 anos, solitário, trabalhador indiferenciado, pensou em mudar pois sentia que o seu trabalho não era reconhecido. Experimentava frequentemente a sensação que era, para muitos, invisível. FEz tudo o que podia mas, mesmo assim, Pedro Lopes, 48 anos, indiferente, nada conseguiu. Investiu tempo e dinheiro, RENovando os seus conhecimentos - Tudo inútil, faÇA ele o que fizer.

O tempo passou, impiedoso; hoje é apenas um homem, sem nome, perdido no meio de muitos, sem idade nem estado civil, um amargo trabalhador que deambula, vagarosamente, pelos vários departamentos de uma qualquer empresa - onde carimba papeis há 20 anos -, repetindo mentalmente as palavras sábias de Camus, no Mito de Sísifo: “…não há castigo mais terrível do que o trabalho inútil e sem esperança.”

Autoria e outros dados (tags, etc)

O Acordo

por Santiago Miral, em 11.09.20

depositphotos_378596086-stock-video-two-people-han

Recebi esta manhã a tão esperada carta da Segurança Social. No final deste mês integrarei, finalmente, o clube dos reformados. Porém, se mantiver este segredo durante o dia de hoje, talvez ainda possa lucrar.

O director dos Recursos Humanos chama-me. Subo vinte e quatro degraus - nem mais, nem menos; tantos quantas as horas de um dia inteiro. Vinte e quatro pequenos ângulos rectos dispostos em hipnótica sequência, desembocando numa magnífica porta estofada. Manda-me entrar.

- Sente-se, Lopes. – Ordenou-me, apontando uma cadeira.

- Obrigado senhor Bettencourt.

- Sabe qual a razão que me levou a chamá-lo?

- Imagino. Quer negociar comigo, não é? Não sei se estarei interessado, sabe…

- Credo homem, até me assusta. Tem ares de adivinho. Bem sabe, eu sempre acreditei nas suas capacidades e – pessoalmente - sempre admirei o seu trabalho. Durante todos estes anos (quantos foram?), bem sei que são muitos, sempre foi um funcionário leal. A propósito, recorde-me onde trabalhava…

- Sou administrativo há vinte e quatro anos, Sr. Bettencourt – respondi de forma automática, disparando o primeiro número que me veio à cabeça.

- Isso mesmo, administrativo há vinte e quatro anos. – Disse, abrindo os braços, confiante. - Um excelente administrativo, pelo que sei. Mas, como decerto entende, a empresa atravessa um processo de reestruturação e, claro está, temos algumas pessoas que podemos dispensar. É certo que ainda lhe falta algum tempo para a reforma, mas estou disposto a propor-lhe um acordo de, ora deixe ver, dez mil euros; agrada-lhe? Posso passar-lhe o cheque de imediato. Aceita?

- Bem... sim, Sr. Bettencourt. Parece-me um valor justo para quem gastou aqui metade da vida. – Respondi, evitando sorrir.

Assinei a papelada, guardei o cheque e saí satisfeito. Embora, neste diálogo, a verdade nunca estivesse presente, a conversa fora proveitosa. Lucrara dez mil euros em dez minutos – dez minutos apenas.

Quando iniciei a descida, por impaciência ou distracção, um pé escorrega no primeiro degrau e o destino encarregou-se de fazer, ali mesmo, justiça.

A vida é, afinal, a única a quem é permitida a verdadeira ironia.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Pág. 1/2



Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.




Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D