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Um Pequeno Desafio

por Santiago Miral, em 28.12.20

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Hoje lanço-vos um pequeno desafio. 

Quem sabe onde fica esta janela?

(Amanhã darei a resposta)

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O Cata-Vento

por Santiago Miral, em 28.12.20

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- Avô, para que serve isto?

- Isto, meu filho, é um pequeno cata-vento, um moinho para sabermos de onde está o vento. É muito útil para anteciparmos certos trabalhos de agricultura.

- Que engraçado, faz-me lembrar certas pessoas que eu conheço.

- Porque dizes isso, meu filho?

- Ora, porque o meu pai diz que o tio Fernando é um perfeito cata-vento. Vira-se para onde lhe dá mais jeito. Já foi candidato à junta por três partidos políticos diferentes e conseguiu ganhar sempre.

- Com todo o respeito que tenho pelo teu pai, devo dizer-te que ele não percebe nada de cata-ventos. Olha que o cata-vento ensina-nos uma virtude muito nobre: a Fidelidade. Informa-nos sempre de onde vem o vento, rapidamente e com precisão. Na ausência de vento espera, imóvel e vigilante, até que se aperceba da primeira brisa para, imediatamente e sem receio, apontar a sua proveniência. Podes sempre contar com a sua lealdade e rectidão, meu filho. Assim deveriam ser os homens...
Sabes, quando era pequeno e passava para a escola, além naquela rua onde mora o José da Saruga havia uma casa brasonada que tinha por baixo da pedra d’armas um painel de azulejos com o excerto de uma carta que Francisco Sá de Miranda endereçou a El Rei D. João III, que dizia assim (nunca me esqueci):

“Homem dum só parecer
Dum só Rosto e duma Fé
Dantes quebrar que torcer
Outra coisa pode ser
Mas de corte Homem não é.”

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As Ervinhas da Indiferença

por Santiago Miral, em 24.12.20

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Ao chegar ao carro esta manhã, deparo-me com este lindo espectáculo no vidro da frente.

Dizem que tudo o que a Humanidade abandona, a Natureza toma conta.

Fiquei a pensar se não se passará o mesmo com os amigos. É que mesmo em tempos de confinamento devemos manter uma ligação estreita aos que nos são próximos sob pena que neles possam crescer as ervinhas da indiferença e, por isso, se sintam abandonados.

Sejamos criativamente solidários.

Feliz Natal. 

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Outro Conto de Natal

por Santiago Miral, em 15.12.20

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Já se conheciam há décadas. Foram oradores habituais em várias palestras astronómicas e respeitavam muito as opiniões uns dos outros embora se reconhecesse ali alguma competição. Escreveram livros sobre estrelas, planetas, física quântica, teoria das cordas e teoria do tudo.

Embora mergulhados na ciência até ao tutano, eram homens comuns sem outras responsabilidades, de corações e vidas solitárias. Gostavam de futebol, de cerveja e de comer pipocas enquanto viam filmes. Para além disso, devoravam livros de astrofísica.

Há um mês, enquanto observavam o céu profundo nos seus telescópios, um deles notou a existência de um novo objecto semelhante a uma estrela. Contrariamente a todos os corpos celestes, este não tinha qualquer trajectória linear ou elíptica e, mais grave que isso, apareceu de um dia para o outro. O objecto luminoso encontrava-se completamente imóvel sobre um campo relativamente próximo.

Rapidamente, o primeiro pegou no portátil e conferenciou com os outros. Soube então que todos eles tinham avistado o objecto praticamente ao mesmo tempo. Num assomo de vaidade académica e numa vã tentativa de perpetuar o seu próprio nome numa descoberta tão assombrosa, cada um deles manifestou a sua intenção de baptizar o novo objecto com o seu próprio nome. Gerou-se uma profunda discussão e, em desacordo, abandonaram a conferência.

Naquela mesma noite, sem que soubessem uns dos outros, cada um arrumou o seu telescópio na mala do carro, preparou um pequeno lanche, não fosse dar-se o caso da observação ser mais demorada, e partiu.

Aquela área era quase deserta, apenas alguma vegetação matizava aquele espaço árido e estéril. A lua nova que teimava em não aparecer conferia à paisagem um ar sombrio, quase fantasmagórico. Estava um frio de rachar.

À medida que se aproximavam, o objecto luminoso foi tomando forma. Suspenso e imóvel parecia preso ao céu por um fio invisível. Por baixo, uma pequena casa de madeira com tecto de canas parcialmente desabado. Talvez um estábulo pertencente a camponeses há muito abandonado. Um abrigo perfeito para estacionar as viaturas em noite de observações.

Os três chegaram junto do casebre ao mesmo tempo e não puderam conter o desagrado pela companhia inesperada dos colegas. Refeitos da surpresa inicial e já resignados, resolveram entrar.

No interior depararam com um casal. A mãe segurava ao colo uma criança recém-nascida. Perante a crueza do cenário, um deles ofereceu o próprio casaco para cobrir a criança. O segundo foi buscar ao carro uma manta, enquanto o terceiro oferece o seu lanche, gesto seguido de imediato pelos outros. Partilharam tudo aquilo que tinham.

Enquanto partia o pão, a jovem mãe ergue os olhos em agradecimento enquanto o companheiro sorri benevolamente. Com voz baixa para não acordar o menino, pergunta:

- Muito obrigado pelo vosso gesto. Como se chamam, senhores?

- O meu nome é Baltazar – responde o primeiro.

- Chamo-me Belchior – replica o segundo.

- Gaspar. – Retorquiu o último.

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A Que Vem de Longe...

por Santiago Miral, em 13.12.20

Porque ontem se falou de Vinícius, porque hoje é Domingo ou simplesmente porque sim:

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O Meu Conto de Natal

por Santiago Miral, em 11.12.20

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A magnificência daquela igreja fascinava-o. Luz e cânticos natalícios invadiam cada recanto do vasto espaço. Mas Joel não se sentia confortável em espaços amplos. Sentia-se exposto, vulnerável e os seus grandes olhos demonstravam esse terror, perscrutando todas as janelas, todas as portas e todos os espaços sombrios do templo à medida que avançava pela nave central. Aquela era a sua primeira grande saída depois de ter dado entrada na nova família de acolhimento. Joel ouvira falar de Natal mas desconhecia o seu significado. No seu país, na sua cultura, as celebrações eram todas diferentes. Aliás, tudo era diferente. O seu olhar, habituado a uma realidade cinzenta e turva, deslumbrava-se pela multiplicidade de cores e sons que se estendia à sua volta, até ao horizonte.

Para Joel o horizonte sempre fora reduzido. Durante metade da sua ainda curta vida, as idas à rua eram raras e sempre em sobressalto. A guerra, aquele ser descomunal e infatigável que teimava em ceifar as vidas de familiares e amigos, avançava lentamente. Num canto escuro daquela casa incompleta, de paredes esburacadas com cheiro a pó e pólvora, onde a existência de uma simples porta ou algum mobiliário era considerado um luxo, Joel habituara-se a brincar com as cápsulas dos pequenos projecteis que todos os dias ia encontrando no chão daquele espaço. Tentando esquecer o ruido ensurdecedor que lhe preenchia a existência, ele bem sabia o seu propósito, embora tentasse esquecer quantas daquelas cápsulas teriam representado a perda de vidas. Imaginar o projéctil trespassando a carne de alguém causava-lhe arrepios, obrigando-o a questionar-se como era possivel existir tanta maldade e tanto ódio.

Mas a incomensurável criatividade de uma criança de dez anos ultrapassa todos os limites, todas as barreiras, todos os muros e era entre aquele pó e detritos que Joel construía pontes e estradas com os pequenos invólucros de latão. Construia cidades imaginadas onde o mal não entrava...

Até ao inevitável momento em que se viu só no mundo.

O banco corrido de igreja atrai-o. Aquele estrado polido e envernizado teria sido uma excelente cama no local de onde veio. Ou uma mesa. Ou uma porta.

De súbito, D. Paula – a sua nova mãe de coração – interrompe-lhe o longínquo pensamento:

- Joel, aqui é costume oferecer presentes nesta época. O que gostarias de receber?

Na sua infinita simplicidade e sem dar tempo para pensar, Joel replica:

- Não preciso de nada. Finalmente tenho aquilo que sempre pedi: uma Família e Paz.

 

 

(Desafio de Imsilva em https://imsilva.blogs.sapo.pt/vamos-escrever-um-conto-de-natal-116556)

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O Cativeiro

por Santiago Miral, em 10.12.20

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Fere-me o medo – um medo horrível - de ter de continuar a viver, dia após dia, nesta angústia. Na verdade, nem sei se é o medo ou a revolta que mais me consome; afinal sou - ainda sou, caramba – um temível guerreiro. Aqui aprisionado, neste lugar imundo, preencho as noites invocando sonhos e memórias de um passado glorioso e próspero: faço desfilar, de olhos semicerrados, as várias batalhas em que saí vencedor ou, no início da Primavera, as tardes em que pescava trutas com os meus filhos ainda pequenos - o que eles se divertiam. Se não fosse a minha curiosidade ainda estaria junto deles.

Recordo-me bem daquele desventurado dia em que fui preso; aquele acampamento tinha algo estranho, eu sentia-o. Aproximei-me demasiado quando uma luz fortíssima, misturada com gritos, me ofuscou por momentos; um forte estampido fez-me estremecer e, lentamente, senti que tudo se apagava.

Algum tempo depois acordei, manietado e sem forças, entre várias pessoas que me observavam. Apercebendo-me que nada podia fazer, rendi-me ao inevitável e deixei-me adormecer para, finalmente, acordar neste horrendo cativeiro. Já perdi a conta aos anos que aqui estou mas, ao longo do tempo, há uma ideia fixa que não me abandona: Vou fugir. – e será hoje.

Tenho, nestes últimos dias, estudado cuidadosamente os movimentos do guarda e já percebi que há ali um momento que posso aproveitar. Shiu! Ele vem agora aí e não posso desperdiçar a oportunidade, é agora ou nunca.

Bruscamente, empurro-o e corro para a rua a toda a velocidade. Consegui. Finalmente posso cheirar o ar fresco da liberdade. Cá fora, contemplo o verde das árvores enquanto o ar puro da liberdade me enche os pulmões.

Subitamente, um som agudo ecoa no ar dando lugar a uma voz forte: “ Atenção, Atenção! Pedimos aos visitantes do Zoo que se dirijam calma e ordenadamente para a saída norte, o urso pardo acaba de fugir da jaula!”

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O Orador

por Santiago Miral, em 07.12.20

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- Hoje é um dia histórico. – Gritava aquele homem de gestos determinados, moldado decerto por rigoroso exercício e pela dureza de uma carreira militar. Parecia, no entanto, deter a estranha capacidade de manter em suspenso, apenas com palavras, aquela inflamada plateia.

– Garanto-vos - continuou - que este dia será comemorado para sempre. Há mais de duas décadas que travamos esta luta desigual que hoje dou por terminada.

Subitamente, um dos soldados que flanqueava o líder, não se conseguindo conter, aproximou-se do microfone e, erguendo a arma, gritou:

- Somos livres!

E logo o auditório, exaltado, bradou:

- Somos livres, somos livres! Morte às máquinas.

- É, pois, hora de recomeçar. – Indicou o orador, e continuou. - Desde 2020, ano em que os governos activaram o Gama 10, o primeiro colosso dotado de Inteligência Artificial, que deixámos de ter repouso; com as desculpas do controlo da pandemia que então ceifava vidas todos os cantos da Terra, as nossas conversas passaram a ser escutadas, as nossas movimentações registados, os segredos mais recônditos passaram a ser escrutinados e usados contra nós, condenando ao fracasso todas as tentativas de organizar uma Resistência forte… até ao momento em que decidimos comunicar apenas pessoalmente, olhos nos olhos. Ainda assim, as máquinas detentoras da nova tecnologia não tardaram a infiltrar-se, criando novos engenhos de aspecto humano, que levaram a população quase ao extermínio.

- Morram as máquinas! – Bradou o mesmo soldado.

- Hoje, finalmente, – esclareceu o líder - terminámos com todos esses opressores biónicos, destruindo-os sem piedade. Acabaram-se as máquinas e nós somos os únicos sobreviventes desta guerra. Depois de entrarmos neste comboio que nos espera, em poucas horas estaremos nas nossas casas e voltaremos ter tudo o que perdemos. Agora somos todos humanos!

- Somos todos humanos! Somos todos humanos! – Repetia o povo com cego entusiasmo, enquanto uma forte chuva começava a cair no recinto. Encharcado e sem arredar pé, o orador abre os braços e grita:

- Viva a liber…liber…liber…liber…crrrrrrrrrrrrrrrrrrr...

E, tombando lentamente para trás enquanto soltava espessas nuvens de um fumo cinzento, estilhaçou-se no chão em mil pedaços.

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Dança Húngara nº5, de Brahms

por Santiago Miral, em 06.12.20

A todos os que manifestaram o desagradado pelo sentimento de melancolia que encerrava a música que ontem publiquei, a minha escolha de hoje recai numa outra que bem podia ser utilizada como banda sonora no anúncio de um qualquer medicamento contra a gripe.

  

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Lacrimosa

por Santiago Miral, em 05.12.20

Sem mais palavras... Bom Domingo.

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